Lula
sanciona Estatuto da Igualdade Racial e diz estar “em
paz”
20.07.2010
- Vermelho.org.br
“Hoje nós
estamos um pouco mais negros; um pouco mais brancos; e
um pouco mais em paz.” Com essas palavras o Presidente
Lula encerrou seu longo discurso na solenidade em que
sancionou o Estatuto da Igualdade Racial e do projeto
de lei que cria a Universidade Federal da Integração
Luso-Afro-Brasileira (Unilab). Ao final, foi cercado pelos
representantes do movimento negro – defensores e críticos
do texto - que encheram o salão do Palácio
do Itamaraty, na tarde deste terça-feira (20).
Aos que criticaram
as mudanças feitas na votação no
Senado, o Presidente disse que vai precisar deles para
continuar avançando nas mudanças. Para Lula,
era melhor ver aprovado o texto, com alçguns benefícios
garantidos, do que a matéria ficar parada mais
150 anos nas gavetas do Congresso. O Estatuto, que tramitou
por 10 anos no Congresso Nacional, vai atender 90 milhões
de pessoas, segundo a Secretaria de Imprensa da Presidência.
Benedito Cintra, assessor parlamentar
da Secretaria de Políticas de Promoção
da Igualdade Racial (Seppir),refuta a ideia de que houve
derrota: “É um texto vitorioso, condensa um conjunto
de aspirações e bandeiras do movimento negro,
e é o texto possível no cenário que
a correlação de forças permitia avançar
até o ponto em que nós avançamos”.
Ele acredita que, “em algumas décadas, teremos
um Brasil diferente porque será mais igual, que
respeita diferença, mais justo e com menos discriminação
racial.”
Para o senador Inácio
Arruda (PCdoB-CE), um dos primeiros a chegar à
solenidade, a criação da Unilab na cidade
de Redenção, no seu estado natal, casa bem
com o Estatuto e representam “o esforço do Presidente
Lula no reconhecimento do trabalho que dedicaram os negros
africanos, como escravos, para construir a nação
brasileira. Sem aqueles mártires talvez esse país
não existe.”
O parlamentar comunista também
avalia que “o reconhecimento vem pausadamente porque a
sociedade brasileira é conservadora e acha que
isso é desnecessário”, em referência
as mudanças feitas pelo relator da matéria
no Senado, senador Demóstenes Torres (DEM-GO),
que rejeitou as cotas raciais nas escolas e nos partidos
políticos e retirou da proposta o capítulo
que garantia tratamento de doenças que são
predominantes ou só ocorrem na raça negra.
Para o senador comunista, “mantendo
o Brasil com esse ritmo, inclusive econômico e social,
teremos mais facilidades para acabar com as desigualdades”,
acrescentando que “a Unilab faz esse papel porque trata
do problemas da desigualdades raciais entre os países
e ao mesmo tempo abre caminho extraordinário para
aquela região do Nordeste brasileiro.”
Ponto de partida
O ministro da Seppir, Elói
Araújo, fez um longo discurso, também ressaltando
a importância de aprovar o projeto ainda que todas
as demandas não tenha sido contempladas. “Esse
não é um papel qualquer, é um documento
que reúne possibilidade de várias ações”,
disse, manifestando a disposição de continuar
lutando pela implementação da política
de cotas nas universidade e, a exemplo da luta das mulheres,
garantir espaço para candidatos negros dentro das
partidos políticos permitindo maior representação
deles nas esferas de poder.
“Esse é o ponto de partida.
Nós não tínhamos pretensão
de concluir uma luta que se arrasta há 122 anos.
Vamos nos debruçar sobre o tema de reforma política
para garantir a presença dos negros nas eleições”,
afirmou.
Para o Presidente Lula, a Unilab
e o Estatuto são formas do Brasil ir pagando a
dívida que tem com o povo africano. “Que não
pode ser mensurada em dinheiro, mas em solidariedade”,
disse em palavras improvisadas, se desmentindo.
Ele começou sua fala
dizendo que, como o ministro Elói tinha se alongado,
ele leria o discurso para ser breve. Mas não foi
o que aconteceu. Intercalando leitura do discurso e improviso,
Lula disse criticou “uma revista brasileira” que diz que
não há negro no Brasil, em referência
a uma matéria publicada pela Revista Veja, que
mereceu críticas de vários setores da sociedade,
notadamente dos antropólogos.
Ele disse que “nós ampliamos
na prática as fronteiras da igualdade”, lembrando
que foi o Presidente do Brasil que mais visitou os países
da África. E enfatizou que aquilo era motivo de
vergonha, ressaltando que os governos anteriores não
queriam enxergar a África, acreditando que só
existia pobreza na região. Ele fez elogios ao continente
e destacou os acordos e comércio crescente entre
o Brasil e os países africanos.
Ampliação
do ensino
Na cerimônia de assinatura
da criação da Unilab, falaram o ministro
da Educação, Fernando Haddad, e o governador
do Ceará, Cid Gomes. Ambos destacaram a ampliação
do ensino superior e técnico nos dois governos
do Presidente Lula. Haddad lembrou que, com a Unilab,
que deve estar funcionando até o final do ano,
são 14 novas universidades públicas brasileiras.
O Ministro da Educação
explicou que a Unilab já nasce com um projeto pedagógico
que vai privilegiar o ensino nas áreas de interesse
dos alunos africanos, como ciências agrárias,
engenharia, saúde e educação. E que
eles complementarão o ensino em seus países
de origem porque há interesse de que eles contribuam
com o desenvolvimento local.
